O que significa quando o psicólogo encaminha para o psiquiatra? Não significa necessariamente que você piorou ou que a terapia deu errado. Em geral, quer dizer que o psicólogo percebeu algo que pede um olhar médico também, e que o seu cuidado pode ficar mais completo com os dois juntos. Este guia explica os motivos mais comuns do encaminhamento, o que ele não significa, como é a consulta e como psicólogo e psiquiatra trabalham lado a lado.

A sessão está terminando quando vem a frase: "acho que seria bom você passar também com um psiquiatra". E, com ela, uma enxurrada de perguntas que nem sempre cabem nos minutos que sobram. Estou tão mal assim? Ela está desistindo de mim? Vou ter que tomar remédio? Vão me dar um rótulo? É uma reação muito comum, e quase todas essas perguntas têm uma resposta mais tranquila do que parece.

Por Dr. Paulo Henrique Tasca
Médico psiquiatra · CRM-SP 288024 — RQE 152348 · CRM-RS 52129 — RQE 45683

Por que o psicólogo encaminha

O psicólogo costuma acompanhar de perto como você está lidando com os sintomas ao longo da terapia. Por isso, pode perceber mudanças, padrões ou dificuldades que indicam que uma avaliação médica também seria útil. Os motivos mais frequentes são:

  • Sintomas intensos ou persistentes, que atrapalham o próprio trabalho da terapia: uma depressão que tira a energia até para comparecer às sessões, crises de pânico frequentes, insônia que não cede;

  • Suspeita de uma condição que precisa de diagnóstico médico, como TDAH, autismo em adultos ou transtorno bipolar;

  • A possibilidade de que a medicação ajude, junto com a terapia, a criar condições para o trabalho avançar;

  • Dúvida sobre o que está por trás dos sintomas, inclusive causas clínicas, como alterações da tireoide, efeitos de remédios em uso ou consumo de álcool e outras substâncias;

  • Terapia que avança na compreensão, mas pouco nos sintomas, depois de um tempo razoável de trabalho;

  • Necessidade de uma avaliação médica mais cuidadosa do risco, quando os sintomas se agravam ou surgem pensamentos de morte ou de se machucar.

Encaminhar não é desistir de você. É o seu psicólogo ampliando o cuidado, e não passando você adiante.

O que o encaminhamento não significa

Algumas leituras aparecem com tanta frequência que vale desfazê-las uma a uma.

Não significa necessariamente que o seu caso seja grave. Psiquiatras atendem desde quadros leves até os mais complexos. Muita gente é encaminhada justamente para que o quadro não se agrave.

Não significa que a terapia acabou. O encaminhamento não pede que a terapia seja interrompida. Muitas vezes, a proposta é justamente continuar o trabalho com você, agora com mais um profissional envolvido.

Não significa que você vai tomar remédio. A consulta pode terminar sem receita nenhuma. A medicação é uma possibilidade avaliada, não uma consequência automática do encaminhamento.

Não significa ganhar um rótulo para sempre. Um diagnóstico, quando existe, serve para orientar o cuidado. E pode ser revisto ao longo do tempo.

Psicólogo e psiquiatra: o que cada um faz

O psicólogo trabalha com a psicoterapia: ajuda a compreender emoções, pensamentos e padrões, e a construir formas novas de lidar com eles, em encontros frequentes. O psiquiatra é médico: avalia o quadro também do ponto de vista clínico, investiga outras causas possíveis para os sintomas, pode pedir exames, fazer diagnósticos e, quando indicado, prescrever e acompanhar a medicação, com consultas mais espaçadas.

Não são caminhos concorrentes. Em algumas condições, especialmente quando os sintomas são mais intensos, a combinação de psicoterapia e tratamento psiquiátrico pode ser mais eficaz do que uma única abordagem isolada. Se quiser entender melhor essa diferença, ela está explicada também no artigo sobre como funciona a primeira consulta.

Como é a consulta com o psiquiatra

A primeira consulta costuma ser mais longa e detalhada que as seguintes, porque é dedicada à sua história: o que trouxe você até aqui, desde quando, como isso afeta o trabalho, o sono, as relações, o que já foi tentado. O fato de você já fazer terapia costuma ajudar bastante, porque muita coisa já foi pensada e nomeada antes.

Ajuda levar o motivo do encaminhamento. Algumas pessoas trazem um breve relatório do psicólogo; outras simplesmente contam o que ouviram na sessão. As duas formas funcionam. Você decide quais informações quer compartilhar sobre o processo terapêutico.

Ao final, a conclusão pode ir por caminhos diferentes:

  • Seguir com a terapia, sem necessidade de medicação, às vezes com algumas orientações;

  • Iniciar um tratamento medicamentoso, discutido com você, junto com a terapia;

  • Pedir exames para afastar causas clínicas;

  • Iniciar uma investigação mais detalhada, como na avaliação de TDAH e autismo em adultos.

Em todos os casos, a conduta é explicada e decidida em conjunto. Você sai sabendo o que foi pensado e por quê.

Como os dois trabalham juntos

Quando psicólogo e psiquiatra conversam, o cuidado fica mais coerente: um entende melhor o que o outro está observando, e o plano de cuidado fica mais coerente. Na minha prática, quando o paciente autoriza, converso com o psicólogo que o acompanha, para alinhar o que cada um está vendo e o que muda no plano.

Essa troca depende do seu consentimento e respeita o sigilo profissional. Você pode autorizar a conversa inteira, apenas parte dela, ou nenhuma. O cuidado continua de qualquer forma.

E se eu não quiser ir?

Você não é obrigado a iniciar uma avaliação psiquiátrica só porque recebeu a sugestão. Mas vale levar a dúvida para a própria terapia: perguntar ao seu psicólogo o que motivou o encaminhamento, o que ele espera que a avaliação esclareça, e contar o que te preocupa nela. Muitas vezes, é nessa conversa que o receio diminui.

Se o encaminhamento ocorreu por pensamentos de morte, intenção de se machucar ou outro risco imediato, não espere uma consulta eletiva. Procure atendimento de urgência ou um pronto-socorro. O CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas.

E se a sua hesitação vem de uma experiência ruim com psiquiatra no passado, vale lembrar que o vínculo faz parte do tratamento e que trocar de profissional é legítimo. Os oito critérios para escolher um psiquiatra podem ajudar.

Dúvidas frequentes

Preciso de um encaminhamento por escrito para marcar?

Não. Você pode procurar um psiquiatra diretamente. Um relatório do psicólogo ajuda, mas não é requisito.

Preciso parar a terapia para começar com o psiquiatra?

Não. Na maioria das situações, a avaliação psiquiátrica acontece em paralelo à psicoterapia. O psiquiatra não substitui o psicólogo, e começar um tratamento médico não significa interromper a terapia.

Psicólogo pode dar diagnóstico? Então por que encaminha?

O psicólogo pode avaliar, identificar hipóteses diagnósticas e realizar avaliações psicológicas. O psiquiatra, por ser médico, também avalia possíveis causas clínicas, pode solicitar exames e prescrever medicamentos quando indicados. O encaminhamento existe justamente para somar essas duas partes.

O que o meu psicólogo conta para o psiquiatra?

A troca de informações entre os dois depende do seu consentimento e deve respeitar o sigilo profissional. Há situações excepcionais previstas nas normas éticas e legais, especialmente quando existe risco grave.

Vou sair da consulta com receita?

Nem sempre. A medicação é indicada quando faz sentido para o seu quadro, e a decisão é tomada junto com você.

Posso escolher um psiquiatra que não foi indicado pelo meu psicólogo?

Pode. A escolha é sua. O importante é que os dois possam conversar, se você quiser.

E se o psicólogo e o psiquiatra tiverem visões diferentes?

Acontece, e costuma ser útil. Cada um vê uma parte do quadro. Quando há divergência, o caminho é os dois conversarem e explicarem a você o raciocínio, para que a decisão seja tomada com todas as informações na mesa.

Quando marcar a consulta

Vale agendar uma avaliação psiquiátrica quando:

  • O seu psicólogo sugeriu, mesmo que você ainda não entenda bem por quê;

  • Os sintomas estão tirando a sua capacidade de aproveitar a terapia;

  • Sono, apetite ou energia mudaram de forma importante;

  • A terapia ajudou a entender muita coisa, mas os sintomas continuam quase iguais;

  • Surgiu na terapia a suspeita de TDAH, autismo ou alterações de humor.

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Agende sua consulta em Ribeirão Preto ou por telemedicina

Se o seu psicólogo sugeriu uma avaliação psiquiátrica, a consulta pode ajudar a entender melhor o que está acontecendo e a somar ao trabalho que vocês já fazem. Atendo presencialmente em Ribeirão Preto e por telemedicina para todo o Brasil.

Buscar ajuda não precisa ser um momento de crise. Pode ser, simplesmente, uma boa decisão. Agende sua consulta pelo WhatsApp.

Para psicólogos

Este texto pode ser enviado a pacientes que receberam a recomendação de avaliação psiquiátrica e ainda têm dúvidas sobre o que ela significa. Quando for útil discutir um caso, a conversa entre nós acontece com autorização do paciente, e você pode me escrever pelo WhatsApp.

Sobre o autor
Dr. Paulo Henrique Tasca
Médico psiquiatra · CRM-SP 288024 — RQE 152348 · CRM-RS 52129 — RQE 45683
Psiquiatra efetivo da Associação Brasileira de Psiquiatria, com experiência em CAPS, internação e interconsulta hospitalar, contextos em que o trabalho com psicólogos é parte da rotina. Atende em Ribeirão Preto e por telemedicina. Conheça a formação e a trajetória.

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional de saúde qualificado. Em caso de sintomas, procure atendimento.